Existe uma obsessão silenciosa entre quem está começando: aprofundar. O aluno conduz uma indução, a pessoa relaxa, e em vez de trabalhar, ele passa mais quinze minutos tentando descer mais um andar.
Eu já fui esse aluno. Vou te contar o que a clínica me ensinou.
Há número para isso. Uma meta-análise de 85 estudos controlados, publicada em 2019 na Neuroscience & Biobehavioral Reviews, mediu o alívio de dor por hipnose separando os participantes por sugestionabilidade. Quem tinha sugestionabilidade alta obteve 42% de redução clinicamente relevante da dor; sugestionabilidade média, 29%; e sugestionabilidade baixa, benefício mínimo. Ou seja, o que muda o resultado não é a profundidade que a pessoa atinge, é a capacidade de responder à sugestão.
Primeiro, as ondas cerebrais
É comum começar por aqui, então vamos organizar. As faixas de frequência descrevem, em linhas gerais, o quanto o cérebro está voltado para fora ou para dentro.
- Gama: atenção intensa, processamento rápido, integração de informação
- Beta: estado desperto comum, raciocínio ativo, conversa, análise
- Alfa: relaxamento com consciência preservada, imaginação disponível
- Theta: absorção profunda, imagens vívidas, fronteira com o sono
A maior parte do trabalho hipnótico acontece em alfa e no começo de theta. Só que existe um cuidado aqui, e ele é importante: essas faixas descrevem atividade elétrica, não são um termômetro de transe. Ninguém coloca eletrodo no cliente antes da sessão. Elas ajudam a entender o fenômeno, não a medi-lo na prática.
As escalas clássicas
Historicamente, a hipnose usou escalas de profundidade. A mais citada é a de Davis e Husband, que organiza o estado em faixas conforme os fenômenos que aparecem: relaxamento, catalepsia de pálpebras, catalepsia de membros, amnésia, analgesia, alucinações.
A lógica é: quanto mais profundo, mais fenômeno disponível. E isso tem uma parte verdadeira. Analgesia e amnésia costumam exigir estados mais profundos que um simples relaxamento.
Mas a escala foi criada em contexto de laboratório, para pesquisa. Levar isso para o consultório como meta gera um efeito perverso: o terapeuta começa a perseguir fenômeno em vez de perseguir resultado.
Os sinais que eu observo de verdade
Na sessão, eu não penso em números. Eu observo.
- Respiração: fica mais lenta, mais baixa, mais abdominal
- Face: os músculos soltam, a expressão fica lisa, a boca entreabre um pouco
- Deglutição: aparece mais espaçada
- Movimento ocular rápido sob a pálpebra: sinal de imagem mental ativa
- Latência de resposta: a pessoa demora mais para responder uma pergunta, e responde com menos palavras
- Assimetria e imobilidade: o corpo para de se ajustar sozinho
Nada disso é infalível, e é por isso que se treina com supervisão. Mas esse conjunto diz muito mais sobre o estado da pessoa do que qualquer escala decorada.
Não existe transe suficiente ou insuficiente em abstrato. Existe transe suficiente para o que você vai fazer agora.
Quanto de profundidade cada coisa pede
Uma orientação prática, sem transformar em regra rígida:
- Relaxamento e redução de ansiedade: estado leve resolve
- Ensaio mental e instalação de âncora: leve a médio
- Ressignificação de memória: médio
- Analgesia e trabalho com dor: médio a profundo
- Fenômenos como amnésia dirigida: profundo
Repare que a maior parte do que se atende em consultório mora nas duas primeiras linhas.
O erro que custa a sessão
O erro clássico é este: o terapeuta decide que precisa de transe profundo, insiste, a pessoa percebe que está sendo avaliada, a vigilância sobe, o estado piora. Aí ele insiste mais. A sessão acaba sem terapia.
Quando eu percebo que o estado não está aprofundando, eu não empurro. Eu mudo o objetivo. Faço o que dá para fazer naquele nível, ratifico algum fenômeno pequeno para a pessoa perceber que houve mudança, e uso isso como base para a próxima sessão. Quase sempre a segunda é muito mais fácil, porque a expectativa deixou de ser um obstáculo.
Ratificação: o atalho que quase ninguém usa
Se eu pudesse dar um único conselho a quem está começando, seria este: ratifique cedo.
Ratificar é dar à pessoa uma prova concreta de que o estado dela mudou. Uma catalepsia de braço, uma pálpebra que não abre, um movimento ideomotor. Não é truque, é informação. A pessoa sai da dúvida, para de monitorar o processo e a profundidade vem sozinha, porque o que impedia era a vigilância.
Perseguir profundidade é empurrar. Ratificar é abrir espaço. O segundo funciona melhor, e é assim que ensino na formação.
Se você ainda tem dúvida sobre o que é esse estado, comece pelo artigo o que é transe hipnótico.
Referências
- Thompson, T. et al. (2019). The effectiveness of hypnosis for pain relief: a systematic review and meta-analysis of 85 controlled experimental trials. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 99, 298-310. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
