Recebo essa pergunta dos dois lados. Do paciente que quer trocar a terapia por algo mais rápido, e do psicólogo que desconfia que hipnose seja atalho para pular o processo.
Os dois estão partindo da mesma premissa errada: a de que é uma coisa ou outra.
Hipnose não é uma abordagem, é um recurso
Psicanálise é abordagem. Terapia cognitivo-comportamental é abordagem. Elas trazem uma teoria sobre o que causa sofrimento e um método para trabalhar isso.
Hipnose não faz nada disso. Ela é um estado que se induz para que outra coisa aconteça com mais facilidade. Perguntar “hipnose ou psicoterapia” é como perguntar “anestesia ou cirurgia”.
É exatamente assim que os conselhos profissionais brasileiros a tratam. O Conselho Federal de Psicologia, na Resolução 013/00, regulamenta a hipnose como recurso auxiliar do trabalho do psicólogo. Não como profissão, não como abordagem, e não como substituto de nada.
O que cada uma faz
| Psicoterapia | Hipnose clínica | |
|---|---|---|
| O que é | Abordagem, com teoria e método próprios | Recurso auxiliar, aplicado dentro de uma abordagem |
| Trabalha | Sentido, história, vínculo, elaboração | Estado, resposta automática, ensaio mental |
| Tempo típico | Processo, medido em meses | Recurso pontual dentro das sessões |
| Quem pode aplicar | Profissional habilitado na abordagem | Profissional de saúde, no escopo da sua profissão |
| Substitui a outra? | Não | Não |
| Melhor uso | Combinadas. A evidência mostra resultado maior do que cada uma isolada | |
A evidência favorece a combinação
Uma meta-análise de 2019, com 15 estudos e 17 ensaios clínicos, mediu a eficácia da hipnose no tratamento da ansiedade. Ao fim do tratamento, o participante médio tratado com hipnose reduziu a ansiedade mais do que cerca de 79% dos participantes do grupo controle, e no seguimento mais longo esse número chegou a 84%.
O achado que mais importa aqui é outro: a hipnose foi mais eficaz combinada com outra intervenção psicológica do que usada sozinha. Não é o meu argumento de vendedor, é o resultado do estudo.
Quando a hipnose acelera o processo terapêutico
Quando o paciente entende o problema mas não consegue mudar a resposta. Ele sabe que o elevador não é perigoso e mesmo assim o corpo dispara. Insight sozinho não desliga isso, e é aí que trabalhar com o estado ajuda.
Também acelera no ensaio de situações temidas, na regulação da ativação corporal e em dar ao paciente uma ferramenta de autonomia entre as sessões, que é a auto-hipnose.
Quando ela não é o caminho
Quando o que a pessoa precisa é de tempo, vínculo e elaboração. Existe sofrimento que não se resolve com técnica, se resolve com processo. Prometer que a hipnose encurta isso é criar frustração.
E o limite que não se negocia: hipnose não substitui diagnóstico, acompanhamento médico nem medicação quando ela é indicada. Transtorno é condição de saúde e exige avaliação profissional. A hipnose entra como ferramenta dentro de um tratamento, conduzida por quem tem formação e atua no escopo da própria profissão.
Para o profissional que está decidindo
Você não precisa trocar sua abordagem. Você precisa de mais uma ferramenta dentro dela. O psicólogo continua psicólogo, o dentista continua dentista, e a hipnose entra onde faz sentido no que cada um já faz.
Referências
- Valentine, K. E., Milling, L. S., Clark, L. J., Moriarty, C. L. (2019). The Efficacy of Hypnosis as a Treatment for Anxiety: A Meta-Analysis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 67(3), 336-363. Acessar
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP n.º 013/2000, que regulamenta o uso da hipnose como recurso auxiliar do psicólogo. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
