Toda vez que eu digo que trabalho com hipnose, alguém faz a mesma piada: “então você faz as pessoas cacarejarem?”. Eu rio, porque entendo de onde vem. Para a maior parte das pessoas, a única hipnose que existe é a que passa na televisão.
O que quase ninguém sabe é que as duas usam o mesmo fenômeno. O estado é o mesmo. O que muda é o objetivo, quem é escolhido para participar e o que acontece depois que acaba.
A definição serve para as duas
A Divisão 30 da Associação Americana de Psicologia revisou o conceito em 2015 e define hipnose como “um estado de consciência que envolve atenção focada e redução da percepção periférica, caracterizado por uma capacidade aumentada de resposta à sugestão”. Leia de novo e repare: essa frase descreve tanto o palco quanto o consultório. Não existe uma hipnose “de verdade” e outra falsa.
Onde elas se separam
| Critério | Hipnose de palco | Hipnose clínica |
|---|---|---|
| Objetivo | Entreter a plateia | Resolver uma queixa da pessoa |
| Quem participa | Selecionado por alta sugestionabilidade | Quem procura atendimento, qualquer perfil |
| Profundidade buscada | A maior possível, porque rende fenômeno visível | A necessária, quase sempre leve ou média |
| Duração | Minutos, sessão única | Processo, com continuidade e plano |
| Quem conduz | Artista | Profissional de saúde dentro do escopo da profissão |
| Responsabilidade depois | Nenhuma | Acompanhamento e encaminhamento quando necessário |
| Sucesso é | A plateia se surpreender | A pessoa melhorar e sustentar a melhora |
Por que o palco parece mais impressionante
A resposta é seleção. O hipnotizador de palco não trabalha com quem aparecer. Ele testa a plateia inteira com exercícios rápidos e sobe ao palco apenas as pessoas que responderam melhor, que costumam ser as mais sugestionáveis do grupo. É um filtro, e é um filtro muito eficiente.
Na clínica acontece o contrário. Eu atendo quem chega, com a sugestionabilidade que essa pessoa tem, incluindo quem responde pouco. Não posso escolher meu cliente pela facilidade dele em entrar em transe.
O quanto a sugestionabilidade muda o resultado clínico
Existe número para isso. Uma meta-análise de 85 estudos controlados, publicada em 2019, mediu alívio de dor por hipnose separando os participantes por sugestionabilidade: 42% de redução clinicamente relevante nos de alta sugestionabilidade, 29% nos de média e benefício mínimo nos de baixa.
Isso explica por que o trabalho clínico sério não depende de fenômeno espetacular. Se eu precisasse de catalepsia e amnésia para tratar alguém, eu conseguiria ajudar uma minoria. A clínica trabalha muito em estados leves e médios, onde não há nada para filmar.
O risco de confundir as duas
Quem procura hipnose clínica esperando o espetáculo se frustra e desiste cedo. Quem oferece hipnose clínica prometendo o espetáculo está vendendo outra coisa.
E vale o lembrete de sempre: hipnose clínica não substitui diagnóstico, acompanhamento médico ou medicação quando ela é indicada. Ela é ferramenta dentro do escopo de cada profissão regulamentada, conduzida por quem tem formação para isso. Espetáculo é entretenimento e não tem essa responsabilidade.
Como escolher, na prática
Se o objetivo é entretenimento, o palco entrega o que promete e não há nada de errado nisso. Se o objetivo é resolver ansiedade, dor, medo ou padrão de comportamento, o que você procura é um profissional de saúde com formação em hipnose clínica, atuando dentro da profissão dele.
A pergunta que separa os dois em dez segundos: o que acontece depois que a sessão acaba? No palco, nada. Na clínica, existe um plano.
Referências
- Elkins, G., Barabasz, A., Council, J., Spiegel, D. (2015). Advancing Research and Practice: The Revised APA Division 30 Definition of Hypnosis. American Journal of Clinical Hypnosis, 57(4). Acessar
- Thompson, T. et al. (2019). The effectiveness of hypnosis for pain relief: a systematic review and meta-analysis of 85 controlled experimental trials. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 99, 298-310. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
