Quando eu comecei a fazer hipnose de rua no Parque do Sabiá, em Uberlândia, eu pendurava um banner numa árvore escrito “Hipnose Grátis, Experimente Aqui”. A reação das pessoas era quase sempre a mesma, e ela dizia tudo sobre o tamanho do mal-entendido: elas paravam a uns três metros de distância e perguntavam se iam acordar sem lembrar de nada.
Passei os últimos quinze anos desfazendo essa ideia. E ela não vem do nada: vem do palco, vem do cinema, vem de uma tradição de espetáculo que confundiu muita gente boa. Então vamos ao que interessa.
Existe uma definição oficial, e ela ajuda a encerrar a discussão. A Divisão 30 da Associação Americana de Psicologia revisou o conceito em 2015 e passou a definir hipnose como “um estado de consciência que envolve atenção focada e redução da percepção periférica, caracterizado por uma capacidade aumentada de resposta à sugestão”. Repare no que a definição não diz: não fala em sono, não fala em inconsciência e não fala em perda de vontade.
Transe é atenção concentrada, não ausência
Transe hipnótico é um estado de atenção focada, com redução da crítica e aumento da resposta à sugestão. É isso. Não é sono, não é inconsciência, não é entrega da vontade.
Você já entrou em transe hoje, provavelmente mais de uma vez. Dirigir um trajeto conhecido e chegar sem lembrar do caminho é transe. Assistir a um filme e esquecer que existe uma sala em volta é transe. Ler um parágrafo três vezes porque a cabeça foi para outro lugar é transe. A diferença na clínica é que esse estado deixa de ser acidental e passa a ser produzido, sustentado e usado com um propósito.
O que a pessoa sente
- O corpo relaxa, às vezes com uma sensação de peso, às vezes de leveza
- A atenção estreita: o som do ar-condicionado some, a voz do terapeuta fica maior
- A noção de tempo muda, e quase sempre para menos (vinte minutos parecem cinco)
- As imagens mentais ficam mais nítidas e mais fáceis de sustentar
- Existe uma disposição maior para experimentar uma ideia nova sem discutir com ela
Esse último ponto é o que faz a hipnose funcionar como ferramenta terapêutica. No estado desperto comum, toda sugestão passa por um filtro que compara, duvida e rejeita. No transe, esse filtro afrouxa. Não desaparece: afrouxa.
O que definitivamente não acontece
Preciso ser direto aqui, porque é onde mora o medo que impede muita gente de buscar ajuda.
Ninguém perde a consciência. A pessoa ouve tudo, sabe onde está, sabe que horas são mais ou menos e consegue conversar. Em vinte anos de clínica e sala de aula, a queixa mais comum ao final de uma sessão não é “apaguei”, é “achei que não estava hipnotizado”.
Ninguém faz o que não quer. O transe não anula valores. Uma sugestão que fira algo importante para a pessoa é simplesmente recusada, e o transe se desfaz sozinho. É por isso que o hipnotizador de palco escolhe voluntários: ele precisa de gente que já quer participar.
Ninguém fica preso. Não existe caso de pessoa que não saiu do transe. Se o terapeuta sair da sala e o telefone tocar, a pessoa atende.
O transe é um estado de atenção concentrada, não de ausência. Quem entende isso para de ter medo e começa a usar.
Por que o estado importa para a terapia
Alguém pode perguntar: se a pessoa está consciente e no controle, qual é a vantagem?
A vantagem é a qualidade do acesso. Boa parte do que produz sofrimento não está no raciocínio, está no automático. A resposta de medo diante de um elevador, o aperto no peito antes de falar em público, o padrão que se repete há vinte anos em todo relacionamento. Você não muda isso argumentando, porque não foi argumentando que isso se instalou.
No transe, é possível chegar ao material que sustenta esse automático e trabalhar com ele: ressignificar uma memória, instalar um recurso, ensaiar uma resposta diferente até que ela se torne a resposta padrão. É esse o princípio por trás dos 4 Passos Para Reprogramação Mental que eu estruturei ao longo dos anos.
E a suscetibilidade?
Existe uma pergunta que aparece em toda turma: “professor, tem gente que não entra?”.
Praticamente todo mundo entra. O que varia é a facilidade, a profundidade e o caminho. Pessoas muito analíticas costumam precisar de induções que ocupem o raciocínio em vez de pedir que ele se cale. Pessoas muito visuais respondem rápido a imagens. Pessoas com medo do processo precisam primeiro de informação, não de técnica.
Quando um aluno me diz que o cliente “não entrou”, quase sempre o que aconteceu foi outra coisa: a indução escolhida não combinava com aquela pessoa, ou faltou uma conversa antes que desfizesse exatamente os mitos deste artigo. Por isso a anamnese vem antes da indução, sempre.
Um bom começo
Se você chegou aqui por curiosidade, a melhor forma de entender o transe é sentir um. Não pela descrição, pela experiência. A auto-hipnose é o caminho mais seguro para isso, porque você conduz e você interrompe.
Se você chegou aqui porque quer atender, a ordem é outra: entender o fenômeno, treinar a observação e só então acumular técnicas. Técnica sem leitura do estado é chute com nome bonito.
Referências
- Elkins, G., Barabasz, A., Council, J., Spiegel, D. (2015). Advancing Research and Practice: The Revised APA Division 30 Definition of Hypnosis. American Journal of Clinical Hypnosis, 57(4). Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
