Ansiedade é a queixa que mais chega ao consultório. Também é o tema em que mais se promete demais, e eu prefiro começar por aí.
Se alguém te disser que resolve ansiedade em uma sessão, saia. Não porque a hipnose seja fraca, mas porque quem promete isso não entendeu o que está tratando.
A evidência aqui é boa e vale citar com número. Uma meta-análise publicada em 2019 no International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis reuniu 15 estudos e 17 ensaios clínicos. Ao fim do tratamento, o participante médio tratado com hipnose reduziu a ansiedade mais do que cerca de 79% dos participantes do grupo controle. No seguimento mais longo, esse número subiu para cerca de 84%. E há um achado importante para a prática: a hipnose foi mais eficaz combinada com outra intervenção psicológica do que usada sozinha.
O que a ansiedade é, do ponto de vista prático
Ansiedade é uma resposta de preparação. O corpo se organiza para enfrentar algo que ainda não aconteceu. Coração acelera, respiração encurta, músculos tensionam, atenção estreita e vai toda para a ameaça.
Isso é útil quando existe ameaça real. O problema aparece quando a resposta dispara sem proporção, com frequência alta, diante de gatilhos que não oferecem perigo. Aí ela deixa de proteger e passa a custar.
Repare em uma coisa: nada disso é decidido. Ninguém escolhe acelerar o coração. É por isso que argumentar consigo mesmo não funciona. Você não convence uma resposta automática, você a reeduca.
Onde a hipnose entra
A hipnose trabalha exatamente na camada do automático. Em transe, é possível fazer quatro coisas que no estado desperto são muito mais difíceis.
1. Regular a resposta fisiológica
A pessoa aprende a produzir, sob demanda, o estado oposto ao da ansiedade. Não é “relaxar” no sentido vago: é treinar uma resposta corporal específica até que ela fique disponível. Com âncora, isso pode ser acionado em segundos, no meio de uma reunião.
2. Ensaiar a situação temida
O cérebro responde à experiência imaginada com nitidez de forma parecida com a experiência vivida. Ensaiar a apresentação, o elevador, a viagem, várias vezes, com o corpo em estado regulado, muda a resposta que aparece na hora real. É o mesmo princípio da ponte ao futuro.
3. Trabalhar o que sustenta o padrão
Quase sempre existe uma memória, uma crença ou uma decisão antiga por baixo. “Se eu errar, me rejeitam.” “O mundo é perigoso.” Ressignificar esse material reduz a produção do sintoma, em vez de apenas administrá-lo.
4. Devolver autonomia
A parte que eu considero mais importante. A pessoa aprende auto-hipnose e passa a ter um recurso próprio. Terapia que cria dependência do terapeuta é terapia mal feita.
Como costuma ser o processo
Não existe protocolo igual para todo mundo, mas existe uma lógica.
- Anamnese. Antes de qualquer indução, entender o quadro: desde quando, com que frequência, quais gatilhos, o que já foi tentado, se há acompanhamento médico, se há medicação.
- Psicoeducação. Explicar o que é a resposta ansiosa. Só isso já reduz o medo do próprio sintoma, que é metade do problema.
- Regulação. Primeiras sessões voltadas a produzir e ancorar o estado de calma.
- Exposição em imaginação. Ensaio das situações, do mais fácil para o mais difícil.
- Trabalho de base. Memórias e crenças que sustentam o padrão.
- Autonomia e manutenção. Auto-hipnose e espaçamento das sessões.
Falar em número de sessões sem conhecer o caso é chute. O que dá para dizer com honestidade é que ansiedade responde bem, e que a maior parte das pessoas percebe diferença nas primeiras semanas, principalmente na intensidade das crises.
Prometer cura rápida para ansiedade é o sinal mais confiável de que a pessoa não sabe o que está fazendo.
O que a hipnose não faz
Preciso ser explícito, porque isso protege você e protege quem atende.
Não substitui diagnóstico. Transtorno de ansiedade é condição de saúde e precisa de avaliação profissional. Sintoma ansioso também pode ter causa clínica, de tireoide a efeito de medicação. Ninguém deveria começar terapia sem isso investigado.
Não substitui medicação. Suspender remédio é decisão médica, nunca do hipnoterapeuta. O que se vê na prática é o contrário do que muita gente imagina: quadros bem conduzidos, com médico acompanhando, costumam responder melhor.
Não é psicoterapia completa. A hipnose é uma ferramenta aplicada dentro do escopo de cada profissão. O psicólogo a usa no contexto da psicologia, e assim por diante.
Se você atende
Duas recomendações que eu repito em toda turma.
Primeira: não comece pelo sintoma mais grave. Ansiedade costuma vir acompanhada, e escolher um alvo pequeno na primeira sessão dá à pessoa uma experiência de sucesso que sustenta o resto do processo.
Segunda: cuide da ratificação. Cliente ansioso é vigilante por definição. Ele vai monitorar a sessão inteira tentando descobrir se está funcionando. Dar uma prova concreta cedo, um fenômeno simples, encurta muito o caminho.
Esses protocolos fazem parte do módulo de tratamentos das formações do Instituto, sempre com prática supervisionada, porque atendimento não se aprende assistindo.
Referências
- Valentine, K. E., Milling, L. S., Clark, L. J., Moriarty, C. L. (2019). The Efficacy of Hypnosis as a Treatment for Anxiety: A Meta-Analysis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 67(3), 336-363. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
