De todos os fenômenos hipnóticos, a analgesia é o que mais impressiona quem assiste pela primeira vez. Também é o que mais exige responsabilidade de quem conduz.
Vou explicar o mecanismo, mostrar as técnicas e depois falar dos limites, que nesse tema são a parte mais importante do artigo.
Dor é, provavelmente, a área com a melhor evidência em hipnose. Uma meta-análise de 85 estudos controlados, publicada em 2019, encontrou efeito analgésico consistente e mediu o tamanho por perfil: 42% de redução clinicamente relevante em pessoas de alta sugestionabilidade e 29% nas de sugestionabilidade média. Antes dela, uma meta-análise clássica de 2000, com 18 estudos e mais de 900 participantes, já apontava que cerca de 75% das pessoas obtêm algum alívio, com tamanho de efeito grande.
Dor não é só um sinal
A ideia intuitiva é que a dor é um aviso que sobe do corpo até o cérebro, e que a intensidade dela corresponde ao tamanho do dano. Só que não é assim que funciona.
A dor é uma experiência construída. O cérebro recebe o sinal, cruza com contexto, memória, expectativa, atenção e estado emocional, e só então produz a experiência dolorosa. Por isso a mesma lesão dói diferente em pessoas diferentes, e por isso a mesma pessoa sente diferente conforme o dia.
Todo mundo já viveu isso. O corte que só começou a doer quando você viu o sangue. A dor de cabeça que sumiu quando o telefone tocou com uma boa notícia. A dor que piora à noite, quando não há mais nada ocupando a atenção.
É exatamente nessa camada de construção que a hipnose trabalha.
Como a hipnose atua
Existem quatro caminhos principais, e eles costumam ser combinados.
Redirecionar a atenção
Dor exige atenção para ser sentida na intensidade máxima. Ocupar a atenção com outra experiência absorvente reduz a percepção. Simples, e mais potente do que parece.
Transformar a submodalidade
Aqui entra a Programação Neurolinguística. A pessoa descreve a dor: onde está, que forma tem, que cor, que temperatura, se pulsa ou é contínua. E então se trabalha essa representação. Uma dor “vermelha, quente e pulsante” pode ser conduzida para “azul, morna e parada”. Parece metáfora, mas a mudança na descrição costuma vir acompanhada de mudança na experiência.
Deslocar
Mover a sensação de um lugar para outro, geralmente para uma região onde ela incomoda menos, e depois reduzi-la. Útil quando eliminar de vez encontra resistência.
Dissociar
Separar a pessoa da sensação. “A dor está no joelho, e você está aqui, observando o joelho.” A dor continua registrada, mas o sofrimento associado a ela diminui. É um dos recursos mais usados em dor crônica.
Analgesia e anestesia
Vale distinguir. Analgesia é redução da dor. Anestesia hipnótica é a ausência de sensação numa região, e exige estado mais profundo e mais treino.
A anestesia hipnótica tem uso documentado em contextos específicos, principalmente em odontologia e em procedimentos com pessoas que não podem receber anestésico químico. É uma aplicação real, mas é uma aplicação de profissional habilitado, dentro de ambiente adequado, e nunca substitui protocolo clínico.
O limite que não se negocia
Aqui está o ponto central deste artigo.
Dor é informação. Antes de reduzir qualquer dor, é preciso saber o que a está causando. Silenciar um sintoma sem diagnóstico pode atrasar a descoberta de algo grave, e isso é o oposto de ajudar.
A regra prática que eu ensino: dor sem investigação médica não se trata com hipnose. Ponto. Depois de investigada, com diagnóstico na mão e acompanhamento em curso, a hipnose entra como recurso complementar, e nesse lugar ela rende muito.
A hipnose muda a experiência da dor. Ela não conserta o que está causando a dor. Confundir as duas coisas é perigoso.
Onde ela costuma ajudar mais
- Dor crônica com diagnóstico estabelecido, em que a redução do sofrimento e da vigilância melhora a qualidade de vida
- Dor associada a tensão, como cefaleia tensional, em que o componente emocional é grande
- Ansiedade antecipatória de procedimento, que amplifica a dor antes mesmo de ela existir
- Preparo e recuperação, com sugestões voltadas a conforto e sono
Repare que em todos os casos existe diagnóstico e existe acompanhamento. Não é a hipnose sozinha resolvendo.
Um detalhe técnico que muda o resultado
Muita gente sugere “a dor vai embora” e não obtém resposta. A sugestão de eliminação total encontra resistência porque a pessoa sabe que a dor tem uma causa, e a parte dela que protege não abre mão do aviso.
Sugestão de redução gradual funciona melhor: de oito para seis, de seis para quatro. Ou uma redução com condição preservada: “o desconforto diminui, e você continua percebendo qualquer mudança importante no seu corpo”. Você reduz o sofrimento sem tirar o sistema de alarme do ar. Isso costuma ser aceito, e o que é aceito funciona.
O módulo de tratamentos das formações cobre analgesia, anestesia hipnótica e os protocolos de segurança que precisam vir antes.
Referências
- Thompson, T. et al. (2019). The effectiveness of hypnosis for pain relief: a systematic review and meta-analysis of 85 controlled experimental trials. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 99, 298-310. Acessar
- Montgomery, G. H., DuHamel, K. N., Redd, W. H. (2000). A meta-analysis of hypnotically induced analgesia: how effective is hypnosis? International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 48(2), 138-153. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
