A auto-hipnose foi a primeira coisa que funcionou comigo. Eu tinha catorze anos, gagueira severa e nenhum terapeuta por perto. O que eu tinha era um livro de seis reais comprado num sebo e a disposição de repetir todo dia. Um mês e meio depois a gagueira não estava mais lá.
Conto isso porque o mais importante da auto-hipnose não é a técnica. É a frequência. Vou te dar o roteiro, mas guarde essa frase.
Antes de começar: três decisões
Escolha o horário. O melhor é aquele que você consegue repetir. Muita gente escolhe antes de dormir e acaba dormindo, o que é ótimo para o sono e péssimo para o treino. Se o seu objetivo é praticar, prefira um horário em que você esteja desperto.
Escolha o lugar. Sentado, de preferência. Deitado convida ao sono. O mesmo lugar todo dia acelera o processo, porque o ambiente vira parte do gatilho.
Escolha um objetivo por vez. Esse é o erro número um. A pessoa quer, na mesma sessão, dormir melhor, parar de roer unha, ter mais foco e resolver a ansiedade. Escolha um. Fique nele por pelo menos duas semanas.
O roteiro em seis etapas
1. Preparação
Sente com a coluna apoiada, pés no chão, mãos separadas sobre as pernas. Defina mentalmente quanto tempo vai ficar. Dez a quinze minutos é suficiente. Diga para si mesmo, uma vez: “ao final, eu volto desperto e disposto”.
2. Fixação da atenção
Escolha um ponto acima da linha dos olhos, na parede ou no teto, e olhe fixamente. Não force. A pálpebra vai começar a pesar sozinha em torno de trinta a noventa segundos. Quando pesar, deixe fechar.
Se você preferir, feche os olhos direto e conte a respiração. Funciona também, só costuma ser mais lento no começo.
3. Relaxamento progressivo
Leve a atenção pelo corpo, dos pés à cabeça ou o contrário, soltando cada região. Não é preciso “conseguir” relaxar tudo. É o passeio da atenção que produz o estado, não o resultado muscular.
4. Aprofundamento
Conte de dez a um, devagar, associando cada número a um passo de descida: uma escada, uma rampa, um elevador. A cada número, mais solto. Se a mente dispersar, volte um número e siga. Dispersar faz parte, não é erro.
5. Sugestão
Aqui está o trabalho de verdade. Falarei da formulação no próximo tópico, porque é onde quase todo mundo erra.
6. Saída
Conte de um a cinco, subindo, e associe: “dois, o corpo desperta; três, a respiração muda; quatro, quase acordado; cinco, olhos abertos, desperto e disposto”. Nunca pule a saída. Ela também é treino.
Como formular uma sugestão que funciona
Sugestão mal formulada é a razão mais comum de a auto-hipnose “não funcionar”.
- No presente. “Eu falo com calma”, não “eu vou falar com calma”. Futuro é sempre amanhã.
- No positivo. A mente não processa bem a negação. “Não vou ficar nervoso” traz a imagem de ficar nervoso. Troque por “eu me mantenho firme e tranquilo”.
- Curta e repetível. Se você não consegue repetir de cor, não serve.
- Com sensação junto. Não basta dizer a frase. Sinta o que sentiria se já fosse verdade. É a emoção que faz a sugestão pegar.
- Realista o suficiente para você aceitar. Sugestão que a sua própria cabeça rejeita não instala. Se “eu sou totalmente confiante” soa mentira, use “eu fico mais confiante a cada dia”.
A sugestão não convence a mente. Ela ensaia uma resposta até que essa resposta vire a mais disponível.
Os quatro erros que fazem a pessoa desistir
Esperar sentir algo espetacular. A auto-hipnose é discreta. Na primeira semana, a maioria das pessoas termina achando que “só relaxou”. É exatamente assim que começa.
Praticar sem constância. Três vezes na semana passada e nenhuma nesta não produz nada. É melhor cinco minutos todo dia do que trinta uma vez por semana.
Mudar o objetivo toda sessão. Já falei, mas vale repetir, porque é o que mais vejo.
Testar em vez de praticar. Ficar avaliando “será que estou hipnotizado?” mantém a parte crítica ligada, que é justamente o que você quer afrouxar.
Auto-hipnose não é meditação
As duas usam atenção e respiração, e por isso são confundidas. A diferença está no destino.
Meditar, na maior parte das tradições, é observar sem intervir: o pensamento aparece, você nota, deixa passar. Auto-hipnose parte do mesmo estado, mas com alvo: você entra para instalar algo.
Uma não substitui a outra e as duas se somam bem. Quem já medita costuma aprender auto-hipnose rápido, porque a parte difícil, sustentar atenção, já está treinada.
Quando procurar um profissional
Auto-hipnose é excelente para hábito, foco, sono, autoconfiança e regulação do estresse do dia a dia. Ela não é o caminho para transtorno instalado, trauma, dor crônica ou qualquer quadro que exija diagnóstico.
Se a sua queixa tem peso clínico, procure um profissional de saúde. A auto-hipnose entra como recurso de apoio dentro do tratamento, e é assim que ela rende mais.
Se quiser um caminho estruturado, o curso de auto-hipnose cobre do básico ao avançado, com as induções que eu uso e as fraseologias prontas.
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
