Todo semestre eu abro uma turma nova e a primeira hora não é de técnica. É de desmontagem. Não dá para ensinar alguém a conduzir um processo enquanto essa pessoa carrega sete ideias erradas sobre o que ela está conduzindo.
Separei os mitos que mais aparecem, na ordem em que costumam aparecer.
Vale ancorar isso em documento. A definição oficial da Divisão 30 da Associação Americana de Psicologia, revisada em 2015, descreve hipnose como um estado de atenção focada com resposta aumentada à sugestão, sem nenhuma menção a sono ou perda de controle. E a resposta varia bastante de pessoa para pessoa: numa meta-análise de 85 estudos controlados, publicada em 2019, o benefício dependeu diretamente do grau de sugestionabilidade de cada participante.
1. “A pessoa apaga e não lembra de nada”
Esse é o campeão. A amnésia pós-hipnótica existe, é um fenômeno real, mas ela precisa ser sugerida de propósito e nem sempre acontece. O padrão é o oposto: a pessoa lembra de tudo, inclusive de coisas que não esperava lembrar.
O que confunde é a distorção do tempo. A sessão durou quarenta minutos e a pessoa jura que foram dez. Isso não é falta de memória, é mudança na forma de registrar a passagem do tempo.
2. “Hipnose é sono”
A palavra atrapalha. “Hipnose” vem de Hypnos, o deus grego do sono, e o nome pegou antes de a gente entender o que estava medindo. Só que o cérebro em transe não faz o que o cérebro dormindo faz.
Na prática clínica isso importa muito: se a pessoa dorme de verdade, ela para de responder, e o trabalho para junto. Boa parte da condução é justamente manter a pessoa no ponto certo, relaxada mas presente.
3. “Quem é forte não é hipnotizado”
Inverte. Quem consegue sustentar atenção, seguir uma instrução e usar imaginação costuma responder melhor. Isso não é fraqueza, é habilidade.
Quem realmente tem dificuldade é quem não quer, quem está com medo e não falou, ou quem está tentando testar o terapeuta em vez de participar. E isso se resolve conversando, não insistindo na técnica.
4. “O hipnotizador controla a pessoa”
Se controlasse, o mundo seria outro. O que existe é cooperação. O terapeuta oferece, a pessoa aceita ou não. Sugestão que passa por cima de um valor é rejeitada, e o mais comum é a pessoa simplesmente abrir os olhos.
Eu costumo dizer em sala que o hipnoterapeuta é mais parecido com um guia de trilha do que com um piloto. Ele conhece o caminho, mas quem anda é o outro.
5. “Vou contar meus segredos”
Não existe soro da verdade em transe. A pessoa continua escolhendo o que diz. Aliás, é comum alguém acessar uma memória forte e decidir não narrar, apenas processar em silêncio. O trabalho segue igual.
6. “Só funciona se for transe profundo”
Esse mito atrapalha mais o terapeuta do que o cliente. Muita gente passa a sessão inteira tentando aprofundar e não faz terapia nenhuma.
A maior parte do trabalho clínico acontece em estados leves e médios. O que determina o resultado é a adequação da técnica ao caso e a qualidade da condução. Profundidade é meio, nunca objetivo. Escrevi sobre isso em detalhe no artigo sobre níveis de transe.
7. “Hipnose é coisa de palco”
Hipnose de palco existe e usa fenômenos reais, mas com outro objetivo: entreter. O espetáculo seleciona os voluntários mais responsivos, produz efeito rápido e não se preocupa com o depois.
A clínica faz o contrário. Ela investiga antes, escolhe a técnica para aquela pessoa, trabalha o que sustenta o sintoma e prepara a saída. Confundir as duas é como confundir uma corrida de rua com uma cirurgia porque as duas envolvem o corpo humano.
Por que desmontar isso é a primeira técnica
Existe um motivo prático para eu gastar a primeira hora de curso com esta lista. Cliente com medo não relaxa. Cliente que acha que vai perder o controle passa a sessão vigiando o processo. Cliente que espera apagar conclui que não funcionou porque ficou consciente.
Cinco minutos de explicação honesta no começo da sessão valem mais que dez minutos de indução. Isso tem nome e lugar dentro do processo, e é uma das primeiras coisas que ensino nas formações presenciais.
Eu mesmo cheguei à hipnose por causa de um mito quebrado. Aos catorze anos eu tinha gagueira severa, fobia social e depressão. Comprei um livro de seis reais num sebo em Uberlândia, “O Poder do Subconsciente”, do Joseph Murphy, e apliquei aquilo todo dia por um mês e meio. A gagueira foi embora. Nada de místico aconteceu. O que aconteceu foi que eu parei de tratar a minha mente como algo que acontecia comigo e comecei a tratá-la como algo com que eu podia trabalhar.
Referências
- Elkins, G., Barabasz, A., Council, J., Spiegel, D. (2015). Advancing Research and Practice: The Revised APA Division 30 Definition of Hypnosis. American Journal of Clinical Hypnosis, 57(4). Acessar
- Thompson, T. et al. (2019). The effectiveness of hypnosis for pain relief: a systematic review and meta-analysis of 85 controlled experimental trials. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 99, 298-310. Acessar
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
