A hipnose para anestesia tem uma história anterior à anestesia geral
moderna. Na primeira metade do século XIX, cirurgias ainda eram feitas
sem os recursos confiáveis de controle da dor que conhecemos hoje.
Alguns profissionais investigaram se a atenção, a sugestão e os estados
então chamados de “mesméricos” poderiam tornar certos procedimentos mais
toleráveis. Essa tentativa diz muito sobre o esforço para aliviar o
sofrimento de quem precisava de uma operação.
Um marco ajuda a situar a época: em 16 de outubro de 1846, William
Morton demonstrou publicamente o uso do éter durante uma cirurgia em
Boston. O Royal
College of Anaesthetists registra que já havia experiências
anteriores com gases, mas aquela demonstração tornou o éter conhecido
para a prática cirúrgica. Antes de sua difusão, o alívio da dor era uma
questão aberta, com alternativas limitadas e resultados incertos.
Por que a
hipnose para anestesia foi considerada?
É fácil imaginar o século XIX como um tempo em que não existia nenhum
recurso. Havia álcool, preparados vegetais e tentativas com gases. O
problema era conseguir um efeito suficientemente previsível e
controlável. Segundo a história publicada pelo Royal College, a
introdução do éter não foi simplesmente a descoberta de uma substância:
foi o começo de uma prática que precisaria evoluir em dose,
equipamentos, monitoramento e formação profissional.
Nesse cenário, procurar outras maneiras de aliviar a dor não era uma
excentricidade sem propósito. Cirurgiões e pacientes tinham motivos
urgentes para buscar conforto. Ainda assim, não devemos romantizar as
operações daquela época. Elas envolviam limitações de segurança, e os
registros que chegaram até nós não permitem reconstruir com certeza toda
a experiência de cada paciente.
Quem tentou
usar estados hipnóticos em operações?
O cirurgião escocês James Esdaile, que trabalhava na Índia sob o
domínio colonial britânico, é um dos nomes mais citados. Em 1846,
publicou Mesmerism
in India, and Its Practical Application in Surgery and
Medicine. O livro reúne relatos de sua tentativa de empregar o
chamado mesmerismo em procedimentos cirúrgicos. É uma fonte histórica
sobre o que ele afirmou ter observado, não um ensaio clínico pelos
critérios atuais.
Outro cirurgião, James Braid, publicou Neurypnology
em 1843. Ele procurou explicar esses estados sem depender da ideia
de um “fluido magnético” transmitido pelo operador. O Wood
Library-Museum of Anesthesiology registra relatos de extrações
dentárias e de procedimentos cirúrgicos associados a essas práticas. A
história da hipnose aplicada à dor, portanto, não se resume a uma pessoa
ou a uma técnica única.
O mesmerismo
era igual à hipnose clínica de hoje?
Não exatamente. A palavra “mesmerismo” carregava explicações sobre
magnetismo animal que não correspondem à compreensão contemporânea da
hipnose. Também havia diferenças entre os métodos dos próprios
praticantes da época. Chamar todos aqueles procedimentos simplesmente de
“hipnose moderna” apaga uma parte importante da história.
Há, porém, uma continuidade interessante: a observação de que
atenção, expectativa e sugestão podem modificar a experiência subjetiva
da dor. Braid tentou separar essa observação das explicações magnéticas.
Hoje, quando falamos de transe
hipnótico, não precisamos supor uma força invisível para levar a
sério o que a pessoa relata. A pergunta clínica relevante é como uma
intervenção pode ajudá-la, em quais condições e com quais limites.
Os documentos de Esdaile também precisam ser lidos no contexto
colonial em que foram produzidos. Os pacientes indianos aparecem nesses
relatos pela voz de profissionais europeus, e não dispomos de avaliações
independentes equivalentes às exigidas em pesquisas atuais. Reconhecer
isso não elimina o valor histórico da tentativa de aliviar a dor; ajuda
a não transformar uma narrativa antiga em comprovação de eficácia
universal.
Por que o éter
mudou o lugar dessas práticas?
O éter ofereceu uma via farmacológica que poderia ser ensinada,
aperfeiçoada e aplicada a um número maior de pessoas. Sua expansão foi
rápida após 1846. Isso não significa que os primeiros usos fossem
seguros pelos padrões de hoje. O próprio Royal College descreve como o
desenvolvimento posterior de equipamentos, conhecimento fisiológico e
profissionais especializados foi essencial para tornar a anestesia mais
controlada.
As práticas mesméricas tinham uma dificuldade adicional: nem toda
pessoa respondia da mesma maneira, e a preparação podia exigir tempo. O
Wood Library-Museum descreve uma comissão que observou casos de Esdaile
em 1846 e registrou tanto pacientes sem sinais aparentes de dor quanto
outros que não entraram no estado pretendido ou mostraram sinais de
desconforto. Esse quadro ajuda a entender por que seria incorreto
afirmar que a hipnose substituía de modo confiável a anestesia
farmacológica.
É justamente essa comparação que torna a história interessante. A
hipnose demonstrou potencial para influenciar a vivência da dor em
algumas circunstâncias; a anestesia médica avançou por um caminho capaz
de oferecer controle mais previsível para a cirurgia. As duas histórias
podem ser contadas com respeito ao sofrimento dos pacientes e aos
limites de cada recurso.
O que
essa história ensina sobre anestesia hipnótica hoje?
Ensina, primeiro, a não confundir analgesia, que é
redução da dor, com a perda de sensibilidade necessária para
determinados procedimentos. Nosso artigo sobre hipnose para
dor explica essa distinção e seus limites. A experiência histórica
desperta curiosidade, mas não autoriza repetir procedimentos antigos nem
prometer que uma pessoa poderá ser operada apenas com sugestões.
Hoje, qualquer uso de hipnose em contexto cirúrgico precisa estar
subordinado à avaliação e ao plano da equipe médica responsável. A
hipnose não substitui diagnóstico, anestesia indicada, medicação ou
monitoramento. O profissional deve atuar dentro do escopo de sua
profissão, e a pessoa precisa conhecer as opções adequadas ao seu caso.
Há espaço para investigar a hipnose como recurso complementar de
conforto e manejo da experiência, sem abrir mão da segurança construída
pela medicina.
O legado mais humano daqueles relatos é simples: profissionais
procuraram formas de diminuir a dor quando os recursos eram escassos.
Olhar para eles com precisão histórica permite valorizar essa busca e,
ao mesmo tempo, compreender por que a prática responsável de hoje
depende de evidências, equipe qualificada e consentimento informado.
Referências
- James
Esdaile, Mesmerism in India (1846), obra original
digitalizada. - James
Braid, Neurypnology (1843), obra original
digitalizada. - Royal
College of Anaesthetists, história da anestesia. - Wood
Library-Museum of Anesthesiology, Anesthetic Techniques Before
1846.
ESCRITO POR
Lucas Naves
Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.
