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Hábitos e escolhas

Praticar gratidão: o que a neurociência pode observar?

Por Redator do Blog • 16 de outubro de 2026 • 6 min de leitura

Lucas Naves ao lado de um caderno aberto e uma xícara sob luz do amanhecer, com a frase Gratidão sem pressa.

Praticar gratidão pode parecer estranho quando o dia foi pesado. Às vezes, o convite para agradecer soa como uma ordem para sorrir, calar uma preocupação ou fingir que uma perda não aconteceu. Não precisa ser assim. É possível reconhecer uma dificuldade com honestidade e, ao mesmo tempo, perceber algo ou alguém que trouxe apoio.

A neurociência investiga como avaliamos uma ajuda recebida e experimentamos gratidão. Essa lente não transforma o sentimento em obrigação. Em um experimento com 958 adultos, participantes escreveram cartas, textos ou listas de gratidão durante uma semana. Algumas modalidades elevaram sentimentos de gratidão e afeto positivo em comparação com o registro de atividades diárias, mas a maioria das diferenças não persistiu uma semana depois (Regan e colegas, 2023).

O que a neurociência observa ao praticar gratidão?

Em um estudo de ressonância magnética funcional, participantes imaginaram receber ajuda em cenários apresentados pelos pesquisadores e avaliaram a gratidão que sentiriam. A intensidade relatada se associou à atividade em uma região do córtex pré-frontal medial. Essa relação foi observada naquela tarefa; não prova que agradecer “reprograma” o cérebro nem que a prática terá o mesmo efeito para todos (Fox e colegas, 2015).

Gratidão não exige declarar que tudo está bem. Você pode agradecer a alguém que ajudou numa semana difícil sem chamar a semana de boa. Pode reconhecer um descanso, uma conversa ou uma oportunidade concreta sem concluir que uma dor deixou de existir. O ponto é nomear algo real, e não produzir uma emoção sob pressão.

Uma pergunta simples ajuda: “O que aconteceu hoje que eu gostaria de reconhecer?”. A resposta pode ser pequena. Alguém ouviu você com paciência. Você conseguiu terminar uma tarefa. Houve alguns minutos de tranquilidade. Se nada vier à mente, isso também é uma informação legítima sobre o momento; não é uma falha pessoal.

Esses resultados descrevem tarefas de pesquisa, não uma regra para todos os dias. Sentir gratidão em um experimento é diferente de atravessar uma situação difícil. É possível reconhecer um apoio concreto sem minimizar o que dói nem esperar que o sentimento produza um resultado futuro.

Por que uma lista de gratidão pode não bastar?

Escrever três itens rapidamente é uma porta de entrada, mas repetir palavras sem ligação com a própria experiência pode virar uma tarefa automática. No experimento de 2023, listas dirigidas apenas a pessoas ou apenas a coisas não diferiram significativamente do grupo que registrou atividades diárias nas medidas comparadas pelos pesquisadores. Já cartas e textos mais desenvolvidos apresentaram alguns resultados melhores logo após a semana de prática.

Isso não torna a lista inútil para todo mundo. Mostra que o modo de escrever importa e que os resultados de um estudo curto não devem virar uma regra universal. Em vez de buscar a quantidade certa de motivos, experimente dar contexto a um deles: o que ocorreu, por que teve valor para você e como foi possível? Uma frase específica costuma dizer mais do que um inventário feito por obrigação.

Pesquisas anteriores também ajudam a explicar por que o assunto desperta interesse. Em experimentos publicados em 2003, grupos registraram acontecimentos pelos quais eram gratos, aborrecimentos ou eventos neutros em ritmos diferentes. Os autores encontraram vantagens em algumas medidas de bem-estar nos grupos de gratidão. Os estudos mediram respostas dos participantes em condições definidas; não provaram que a prática resolve qualquer problema (Emmons e McCullough, 2003).

Como agradecer a uma pessoa sem criar uma obrigação?

Pense em uma ajuda concreta que recebeu. Em vez de escrever “você é incrível”, descreva a situação: “Quando você me ouviu naquela conversa, consegui organizar o que precisava dizer”. Se quiser, envie a mensagem. Também é válido guardá-la para si; escrever já pode ser uma forma de reconhecer o encontro.

Há uma nuance importante. No estudo de 2023, as cartas dirigidas a pessoas vieram acompanhadas não só de sentimentos positivos, mas também de maior sensação de dívida. Isso lembra que agradecer não precisa transformar cuidado em cobrança. Quem ajudou pode ter agido livremente, e você não precisa prometer retribuir além do que deseja ou consegue fazer.

Se expressar gratidão diretamente puder expor uma relação difícil, prefira um registro privado ou escolha outra pessoa. O exercício deve respeitar seus limites. Uma prática pessoal funciona melhor quando preserva a liberdade de quem agradece e de quem recebe a mensagem.

Onde a gratidão encontra as escolhas do dia a dia?

Reconhecer um gesto pode inspirar uma resposta concreta. Se você agradece pelo apoio de um amigo, talvez queira marcar outra conversa. Se percebe que um intervalo fez bem, pode reservar alguns minutos semelhantes amanhã. A gratidão, nesse sentido, não substitui uma decisão: ela pode iluminar o que merece atenção quando você decide.

Essa ideia conversa com o artigo do Instituto sobre como retomar a mudança de hábitos depois de um deslize. Ali, a ênfase está em observar o contexto e escolher uma próxima ação possível. O mesmo cuidado vale aqui: um registro breve e verdadeiro pode caber melhor na rotina do que uma cobrança para sentir gratidão o tempo todo.

Quem gosta de práticas de atenção pode encontrar na auto-hipnose um exercício complementar para desacelerar e perceber a experiência presente. Não é preciso usar hipnose para agradecer, e nenhuma dessas práticas substitui medidas concretas diante de um problema real.

E quando agradecer parece impossível?

Não force. Há momentos em que descansar, pedir ajuda, resolver uma urgência ou simplesmente reconhecer a tristeza é o passo mais adequado. Gratidão não é teste de maturidade, prova de fé ou obrigação para quem sofre. Você pode voltar ao exercício em outro dia, se ele fizer sentido.

Se houver sofrimento persistente ou prejuízo importante na vida diária, procure avaliação profissional. Uma prática de gratidão ou hipnose não substitui diagnóstico médico, medicação indicada nem acompanhamento de saúde; cada profissional deve atuar dentro do escopo da sua profissão.

Uma forma gentil de começar é trocar “pelo que eu deveria agradecer?” por “há algo verdadeiro que quero reconhecer agora?”. Se houver, dê nome a isso. Se não houver, cuide do que precisa de cuidado. A escolha continua sendo sua.

Referências

  1. Regan A. e colegas. Are Some Ways of Expressing Gratitude More Beneficial Than Others? Results From a Randomized Controlled Experiment. Affective Science, 2023.
  2. Fox G. e colegas. Neural correlates of gratitude. Frontiers in Psychology, 2015.
  3. Emmons R., McCullough M. Counting blessings versus burdens: an experimental investigation of gratitude and subjective well-being in daily life. Journal of Personality and Social Psychology, 2003.
Lucas Naves

ESCRITO POR

Lucas Naves

Professor de Hipnose Clínica e Trainer em Programação Neurolinguística. Criou o Protocolo Naves e já formou mais de 60 mil alunos. Conheça a história dele.

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